quarta-feira, 28 de maio de 2014

Dez passos - certeiros - para ter um infarto


Passo 1 - Vá ao clínico geral para o check up.
Sim. Você não leu nada errado. Esse é o primeiro passo. Você vai ao clínico e ele te pede uma série de exames entre os quais um eletrocardiograma. Então é só você se virar nos 30 para fazer todos os exames antes dos 15 dias para o retorno médico.

“Oi, tum, tum, bate coração
Oi, tum, coração pode bater
Oi, tum, tum, tum, bate coração
Que eu morro de amor com muito prazer.”

Passo 2 - Procure fazer todos os exames na mesma clínica.
Essa é uma opção óbvia na verdade. Comodidade, praticidade, rapidez e eficiência... Ao menos é o que se espera...

“Meu coração é vermelho
Hei! Hei! Hei!
De vermelho vive o coração
He Ho! He Ho!
Tudo é garantido
Após a rosa vermelhar
Tudo é garantido
Após o sol vermelhecer.”

Passo 3 – Se esforce para viver emoções bem fortes.
Isso mesmo! Faça algo que nunca fez antes. Brigue com alguém. Comece um relacionamento. Ou termine um. Exceda os limites de velocidade. Exceda os próprios limites. Trabalhe excessivamente. Exaustivamente. Acumule sono. Acumule trabalho e responsabilidades. Tome decisões por impulso. Ou então faça rapel pela 1ª vez (esse último, por si só, pode ser um bom motivo para infartar).

“Meu coração tá batendo
Como quem diz:
"Não tem jeito!"
Zabumba bumba esquisito
Batendo dentro do peito.”

Passo 4 - Vá para o exame cardiológico com todas essas emoções pulsando no seu peito.
Certamente essa salada de emoções irá provocar algum tipo de alteração no seu eletrocardiograma. Junte a isso outros ingredientes determinantes entre os quais um pouco mais de emoção e adrenalina com longas filas de espera, mal-entendidos, remanejamentos e ausências no trabalho. Sem falar na correria para chegar a uma consulta que foi desmarcada, mas você foi a última pessoa a saber.
“Agora aguenta coração
Você não tem mais salvação
Você apronta
Esquece que você sou eu.”

Passo 5 - Pegue o resultado do seu ECG no mesmo dia do retorno ao clínico geral.
Esse passo é um item importante, afinal, caso o resultado do exame seja algo muito esdrúxulo, o seu médico poderá lhe ajudar na hora de decifrar o laudo do cardiologista (no caso em questão – o meu – o resultado foi de fato muito esdrúxulo). Lembre-se que você não terá nem a chance de consultar o oráculo (salve google!) por que antes de você conseguir fazer isso chegará a sua vez de ser atendido.
“Coração,
Para que se apaixonou
Por alguém
Que nunca te amou
Alguém que nunca
Vai te amar...?!”

Passo 6 - Deixe o (esdrúxulo) resultado do seu ECG por último na pasta de exames.
Melhor começar com a parte boa, deixando aqueles termos escatológicos, quer dizer, do jargão médico, para serem decifrados por aquele em quem você confia, aquele em quem você deposita todo crédito e de quem você só espera ouvir palavras boas e doces e amenas.

“No tic tic tac
Do meu coração
Renascerá
No tic tic tac
Do meu coração
Renascerá.”

Passo 7 - Ouça do seu médico que o laudo do cardiologista afirma categoricamente que você teve um infarto!
Claro que você jamais imaginou ouvir isso do seu médico, do seu cuidador, daquele que acabou de verificar seu índices normalíssimos de glicose, hematócritos, plaquetas, uréia, cálcio, potássio, vitamina D, colesterol, etc, etc, etc. Como aceitar um laudo tão improvável?!

“Meu coração está radiante,
Bate feliz acho que é o amor,Quando te vejo chego a sonhar.”

Passo 8 – Retorne à clínica na qual fez o bendito exame cardiológico.
Sim, imediatamente! Volte lá, arme um escândalo, faça um barraco, invada o consultório médico, puxe o Doutor que fez o laudo errado pelo colarinho do jaleco e grite com ele para que ele corrija o erro que cometeu.

“Coração, coração, coração
Vê se toma jeito, coração
Coração, coração,
deixa de ser trouxa, coração.”

Passo 8 (revisado, a pedido do segurança da clínica) – Retorne à clínica na qual fez o ECG.
Explique para a atendente o ocorrido. Peça para falar com o dono da clínica que certamente não estará no local. Siga, portanto, o procedimento padrão: faça a ficha, espere uma eternidade e refaça o exame. A essa altura você já adquiriu uma série de fobias e sente até medo de morrer.

“Eu vou dizer o que tenho no coração
Vou traduzir o que eu sinto por essa canção
Vou dizer o que tenho no coração
Não sei falar de amor
Mas vou dar voz à emoção.”

Passo 9 – Viaje 32 km para uma consulta em outro cardiologista e tenha a consulta desmarcada outra vez.
Ah, e também perca a consulta com o cardiologista do plantão no seu trabalho. Se torne a reencarnação do Aírton Sena saindo do Plano Piloto às 16h para uma consulta às 17h. Detalhe: no Gama. Abra bem os ouvidos e o coração para o momento em que a atendente da clínica lhe disser: 'nós tentamos lhe avisar antes, senhora'. Assim mesmo, pois se o coração não tiver bem aberto, o segurança agirá novamente.

“Olha, cê me faz tão bem
Só de olhar teus olhos, baby, eu fico zen
Coração acelerado a mais de cem
Juro que eu não quero mais ninguém
Você me faz tão bem.

E, finalmente,

Passo 10 – Faça o exame certo, no lugar certo.
Opte por fazer ‘o exame’. Aquele que não deixará dúvidas. O que fará seu coraçãozinho bater suavemente, quero dizer acelerado, affff!, quero dizer normalmente. Faça esse exame e escute a especialista dizer assim: ‘Um coração bom desses, humpf! Quem foi que fez essa barbeiragem, hein’?

“Coração apaixonado
Só diz coisas que parecem tão banais
Sempre certo, mesmo errado
É o fogo que não morrerá jamais.”

Nota: Olha, serei bem sincera com vocês, diletos leitores: se ninguém infartou vivenciando toda essa via-crucis, só posso afirmar que vocês têm um coração de ferro! ;)

 
Fonte da imagem: http://www.fempi.com.br/geral/?p=1691

By M@riblue.


Nota: O Vocabulário da Língua Portuguesa - Volp - prevê como corretas as duas grafias 'infartar' e 'enfartar'. 

(Vide link: http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?sid=23)

quinta-feira, 22 de maio de 2014

De Sansão e Dalila e da força que vem dos cabelos: A saga.

Crepúsculo
Ela saiu animada do trabalho no fim daquela tarde. Ia finalmente ter um encontro com o seu cabeleireiro. Agendara o seu horário com quase dois meses de antecedência. Após extenuantes pesquisas de looks de famosas e da observação atenta de madeixas de mulheres comuns que circulavam nos mesmos ambientes que ela, até a coleção de fotos ilustrativas que levaria no grande dia. Era finalzinho de uma tarde de inverno, o céu sem nuvens deixava entrever que o crepúsculo já se anunciava. Deixou a sala com o pensamento de que iria recuperar a sua força e energia vitais, bem ao contrário do que acontecera com Sansão, o Fortão. No caso dele que enfraquecia sem as madeixas abundantes; para ela, cortá-las eram estímulo e renovação. Assim, confiante e destemida, foi ao encontro do seu ‘hair stylist’, hashtag: #partiuforçacapilar!
Fonte: http://www.cygnuscosmeticos.com.br/cabelos/tudo-sobre-hidratacao-capilar

Lua Nova
Bem sabemos que para as mulheres cortar os cabelos não poderá jamais ser considerado um ato corriqueiro e banal, mas um evento, uma transição, um quase ritual de passagem, do qual e para o qual toda energia, expectativa e atenção são destinadas e extraídas durante longo tempo. Mudar os cabelos pode implicar em rompimentos com padrões de comportamento e até de relacionamentos, pode representar um ato revolucionário, desafiador e de coragem extrema. Mexa com os cabelos de uma mulher e descubra quantas feras podem surgir mágica e repentinamente à sua frente. Mas, antes de decidir é muito importante saber qual é a configuração dela. Da lua. Era exatamente a transição da lua cheia para a lua minguante, rumo à promissora lua nova. Saibam que a lua tem peso determinante na hora de permitir passar a tesoura nos fios. Tudo a ver com as cheias dos rios e o movimento das marés. Afinal de contas, uma mulher não é apenas uma mulher, meus caros, é um complexo exemplar que congrega em si todas as manifestações da natureza. A lua, portanto não era nova. Mas caminhava para nova. E ela finalmente chegara ao cabeleireiro. 
Fonte: Fonte:http://www.iplay.com.br/Imagens/Divertidas/07Dx/Fases_Da_Lua_Sobre_Montanhas
Eclipse
Tudo ia muito bem até o momento em que o seu preferido, o eleito, o único que poderia manejar os preciosos fios de sua cabeça diz a seguinte frase: senta aqui que ELA vai te atender. ‘Como assim’? ‘Quem é essa’? ‘Quem vai mexer nos meus cabelos’? ‘Você está louco’? Tudo isso expresso apenas em pensamento nas primeiras frações de frações de segundos. A fala mesmo é a seguinte: ‘sento aqui’? E ela se senta desconfiada e estranhamente incomodada. Então resolve dar um crédito para a moça, outra integrante do staff de cabeleireiros do salão. Senta-se e entrega-se de cabeça (aqui no sentido literal da coisa). O processo é o usual, divide-se o cabelo em mechas, úmidos e limpos, e tendo-se o corte definido, começar com tesouradas suaves e depois vigorosas, alternando a intensidade e a velocidade a fim de transformar uma mulher comum em uma ‘super-hiper-ultra-mega-high’ mulher. Outra parte dessa transformação é a tintura (quer dizer, tinturas, descolorações, mechas, permanentes, progressivas, relaxamentos, hidratações, e etc, etc, etc).  A tintura era o próximo passo da sessão.  A cor previamente definida: mel. Fotos ilustrativas à mão e o espelho à frente. Mãos à obra. Novas mechas, divisões nos cabelos, papelotes de alumínio, calor, touca, espera. Incontáveis minutos de espera. Essa parte do processo é o que poderia ser denominado eclipse: é uma conjunção de cores e a busca por uma perfeita harmonização de tons, cujo resultado dever ser algo inesperadamente belo, surpreendente e jamais visto por olhos humanos. Bem, isso na teoria... Na prática a coisa não acontece exatamente assim. Ela sabia que de tempos em tempos alguém deveria vir conferir se as cores, os tons, enfim, se tudo estava ok, etc. Mas não. A aspirante a pretendente e aprendiz de cabeleireiro sequer deu uma ajustadinha na touca. Resultado: um horror! 
Fonte: http://www.checklisttur.com.br/citytour.php


Um verdadeiro e horroroso espetáculo de mau gosto: ‘total eclipse on the hearth’! Os preciosos fios assumiram coloração alaranjada, dourada, amarelada e algumas nuances de marrons, mas nem de longe atingiram o tom cor de mel tão esperado, desejado, ansiado. Socorro! Ela quis gritar, em puro e justificado desespero. Mas disse: ‘o meu cabelo tá muito claro’! ‘Tá estranho’(...) ‘Tá laranja’! ‘Vai ficar assim, horroroso’??? E a resposta: 'Calma, vai dar tudo certo'. Depois do eclipse tudo voltará ao normal. Era noite. Ela aproveitou-se das sombras coniventes e seguiu anônima para a sua casa. A ideia era ir se deitar e dormir. Apagar e esquecer aquele pesadelo maluco. Não sem antes ouvir da filha: ‘seu cabelo ficou horrível mamãe’! e do marido: ‘nossa, ficou loira’?. Afffffffffff, melhor ir dormir logo pra acabar com essa tortura!

Amanhecer
O dia entrando pela janela e o vento brincando com as cortinas. Ela se move ainda sonolenta, se espreguiça. Abre os olhos bem devagar. Respira fundo e, ganhando consciência dos fatos, pensa: ‘foi um pesadelo, foi um pesadelo’! Suspira. Devagarinho se levanta e caminha na ponta dos pés. Vai em direção ao espelho. Tudo o que ela deseja é que tudo aquilo não seja real. Tira as mãos dos olhos e... ‘Aaaaaarrrrrghhhhhhhhhhhh’! ‘que horror’! ‘pareço um mico leão dourado’! ‘Socooorroooooo’! E pensa desolada que vai ter de levar a filha à escola, ir para a academia, fazer compras no supermercado. Como conseguirá isso com aquele cabelo???? Céus!!! Definitivamente quis encontrar uma touca de natação e finalmente sair de casa livre dos olhares maldosos e risonhos. Livre?! Mas deu-se por vencida, saiu assim mesmo. Convicta, entretanto de que na primeira farmácia estaria a solução para os seus problemas. Aquela tintura nova, novíssima, daquela marca que não agride os fios e na cor chocolate alegre, quente, sei lá; acho que claro, isso: chocolate claro!
Fonte:
http://www.bolsademulher.com/cabelos/cabelos-curtos-e-cacheados-seis-opcoes-de-corte/
Ao levar a filha à escola, com seu maior óculos de sol e enrolada até as orelhas em um cachecol diz: ‘hoje mamãe não vai descer, hoje você vai sozinha filhinha’... Espera a menina entrar na escola e sai, alucinada, para a farmácia. Nem quer saber mais de academia. Já em casa e mais próxima da solução, reinicia o processo. Divide o cabelo em mechas, mistura a tintura, prepara tudo. O suplício de ter aquele cabelo estranho e esquisito chegará ao fim. Ao final de tudo o resultado: uma tiara dourada insiste em marcar o contorno da cabeça. Ah, se arrependimento matasse! ‘Nunca mais’ – ela jura a si mesma – ‘nunca mais aquela mulher irá tocar em um único fio de cabelo meu’! Decidida volta à farmácia, sai de lá com nova tintura, dessa vez henna escura – as mulheres entenderão – então dá início a mais uma etapa na busca do cabelo perfeito. Findo todo o trabalho o resultado: algo próximo de uma cor uniforme. Sem abrir os cabelos, claro! Mas no geral, naquela olhada assim por cima, tinha ficado bom. Ao menos não precisaria mais dos óculos que escondiam o rosto e nem do cachecol debaixo daquele sol do saara que ardia lá fora.

Desfecho
Uma saga é uma saga. E uma saga como a descrita acima não é para qualquer mulher. É somente para aquelas que têm a força e a energia revigoradas quando cortam os cabelos. Ou quando querem mudar o mundo à sua volta quando mudam o estilo de suas madeixas. Né?


By M@ribLue

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Dessas histórias que nos fazem acreditar em anjos, nas pessoas e no amor...

Hoje por conta de um atendimento desci mais cedo para almoçar. Restaurante vazio, poucas pessoas, silêncio e calmaria no ar. Sentei-me com uma conhecida de outro setor. Aos poucos outras pessoas chegavam para a refeição. Confesso que tinha um pouco de pressa, mas para minha sorte, não me rendi aos apelos cronológicos. Pude, felizmente, ouvir uma belíssima história.
Em tempos em que os ouvidos da humanidade andam saturados de tanta notícia ruim o relato que segue soa como bálsamo renovador da fé na pessoa humana. E no verdadeiro amor.
Cena do Filme Meu Primeiro Amor.
In: http://portaldecinema.com.br/news/2013/08/27/12-filmes-sobre-primeiro-amor-para-assistir-e-se-apaixonar/

Ela, uma mulher com seus quarenta e uns,  talvez, espiritualidade hiperdesenvolvida e uma doença. Câncer. Travando a luta quimioterápica no afã de combater as células que multiplicavam-se desordenadas nas profundezas de seu corpo biológico. Luta essa que incluía viagens solitárias a São Paulo, de ônibus, devido ao alto custo do tratamento e às parcas economias reunidas para essa finalidade. 
Ele, um homem com seus setenta e muitos, talvez, solidão e solitude amplificadas pela viuvez e missão paterna já cumprida, usufruindo da rica aposentadoria de desembargador, mas sem ter com quem compartir sequer um pequeno prazer cotidiano.
Quis o destino - assim é mais poético descrever - que essas duas almas se encontrassem um dia e fossem ambas tocadas  pelos singelos dedos de Deus. Sim! Uma união desse porte somente mãos divinais poderiam promover.

Fonte da Imagem:
http://www.mariatirone.com/2012/08/miedo-al-amor-osho.html
Encontraram-se os dois em meio às buscas espirituais que faziam. Identificaram-se. Irmanaram-se. E amaram-se. Ele, pleno de amor transbordante, amou-a e era todo cuidados com ela. Ela, mesmo fragilizada e doente, permitiu-se ser amada. E deixando-se amar, assim amou também. Preencheu o espaço outrora ocupado pela solidão e tornou a vida de alguém algo significativamente útil.
Há rumores de que ela, cercada de todos os cuidados possíveis, quando saía do banho tinha já a roupa posta sobre a cama, a bolsa, o sapato, a toalha imediatamente à mão. Também se diz que nos dias em que ela conseguia trabalhar, o amado a esperava na Biblioteca, lendo o jornal. Viajavam juntos a São Paulo para o tratamento. E à Europa para a diversão.
Será que os dois perceberam que amando um ao outro daquela forma e naquele contexto tornavam real e verdadeiro um dos conceitos de amor que é via de mão dupla, em que o amor que vai sempre retorna, quando é dado por inteiro, sem expectativas, sem esperas, sem aguardar retribuição?
Espero sinceramente que sim.
Pois essas duas almas tiveram a chance de experimentar algo singular e mágico em suas vidas.
Essas almas receberam dos céus uma benção!
Ela teve de passar por uma doença grave para ter a chance de experimentar a rica experiência do amor. Ele teve de passar pela solidão para ter a chance de experimentar a rica experiência da doação.
Cena do Filme Ensina-me a Viver.
In: http://portaldecinema.com.br/news/2013/08/27/12-filmes-sobre-primeiro-amor-para-assistir-e-se-apaixonar/
Um sentimento muito intenso de comoção e de esperança inundou meu coração quando ouvi essa linda história. 
Pensei em quantos de nós teremos a chance de vivenciar algo similar. Em quantos de nós acreditaria que esse tipo de sentimento existe. Em como nos comportaríamos se fôssemos nós os protagonistas dessa história.
Não sei se algo assim acontece por que merecemos, ou se por que precisamos, mas de uma coisa tenho certeza: desejo do fundo do meu coração ter a capacidade de perceber, mesmo em meio a tanta poluição e ruídos, quando um amor real, genuíno e verdadeiro estiver por me visitar!

By  MariBlue.



segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Nasce um leitor!


Interessante como as coisas acontecem, sem que estejamos esperando, sem que as provoquemos ou as planejemos. De repente, o sobrinho Renato aparece em casa com um livro - o seu primeiro - nas mãos, em processo de leitura. A mãe diz que foi um dos presentes de amigo oculto e que depois de aberto não mais fora deixado de lado. Achei o máximo. E como não poderia deixar de ter parte nessa maravilhosa descoberta, após o almoço lemos juntos - tia e sobrinho - um capítulo (ou mais) do primeiro livro lido na íntegra por Renato. Tive a felicidade de compartilhar desse momento mágico em que nasce um leitor! É algo inexplicavelmente inexplicável... 
Fonte da Imagem: http://projetosnow.blogspot.com.br/2009/05/um-menino-entre-livros.html.
Líamos parágrafos alternados e depois da visita o sobrinho se foi com o livro. Agora se tratava de seu mais novo e inseparável amigo. Lembro que na ocasião conversamos sobre leituras e Renato me perguntou quais os livros que eu havia lido e nunca esquecido. Disse a ele quatro ou cinco títulos marcantes, entre os quais Clarissa, Viagem à Aurora do Mundo, O morro dos Ventos Uivantes, Orgulho e Preconceito, A Cabana e O Caçador de Pipas. Encerramos a conversa e dias depois, quando nos reencontramos na noite de Natal fui sabendo das suas novidades literárias: Renato terminara a leitura. E já começara uma nova! A mãe me contou que o pedido de presente de Natal foi uma lista de livros! E para minha surpresa na lista estavam alguns títulos dos livros que mencionei naquela conversa inicial. Sorri, entre surpresa e preocupada - será que são livros adequados para a sua idade? Depois de alguns comentários sobre 'as orelhas' de alguns títulos, e da naturalidade e desenvoltura com que Renato encarou o assunto central de um deles, simplesmente desencanei. O postulado de Ranganathan(*) que diz que 'para cada livro o seu leitor'  e 'para cada leitor o seu livro' é essencialmente aplicável nesse caso! Bem, estando já bastante satisfeita com os avanços literários do pupilo, surpreendo-me um pouco mais em meio à nova conversa sobre os temas dos outros livros, e da qual a mãe dele não fez parte, Renato me solta a seguinte pérola: 'Veja só o que dá não ler; nem pode participar da conversa'! 

Essa fala do mais novo leitor do pedaço dispensa quaisquer comentários...

By MariBlue.

(*) Mencionado por um amigo Bibliotecário, Ranganathan foi um matemático e bibliotecário indiano. Sua principal contribuição ao campo da ciência da biblioteca é o desenvolvimento do primeiro sistema de classificação analítico-sintético, a classificação dos dois pontos (Fonte: http://www.somatematica.com.br/biograf/ranganathan.php).

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Não me repito

Adicionar legenda
Eu me escondo.
Espero que me encontrem, jóia preciosa, em meio às bijuterias disponíveis.
E espero que ressaltem meu grandioso valor, beleza e raridade.
Me escondo dos outros. Mas sei o que sou.
E sei que sou coisa muito boa, de qualidade.
Mas não me mostro para quem não tenho intimidade.
E intimidade é para poucos na minha vida.
Por vezes escondo o que há de melhor e de pior em mim.
Disfarço minhas inseguranças no modo como me visto e na maneira como me expresso.
Sou recatada e sou polida. Sou prolixa.
Me refugio nas artes e na escrita.
É nessas duas modalidades que encontro o prazer de viver.
Sou doce, simpática, diplomática.
Sou verdadeira, me expresso à minha maneira.
Falo as minhas verdades sempre que posso.
Possuo alto nível de tolerância e altos índices de tato para reclamar alguma coisa.
Acho que gostaria de mexer um pouco nessas quantidades.
Diminuí-las um pouquinho só.
Procuro conviver com o diferente, mesmo que no meu íntimo, não o aceite.
Sou simples. Sou sensível. Sou humana. Sou indecisa. Procrastinadora.
Talvez influenciável. Um pouco só, às vezes.
Carrego comigo valores dos quais sou incapaz de abrir mão: respeito; honestidade; hombridade; lealdade; senso de integração; espírito de harmonia.
Sou eu mesma. Ao meu estilo.
Sou autêntica. Não me repito.

E tenho dito!

By, M@riBlue

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Um dia você estará do outro lado...

Certa manhã de domingo ela sai de casa dirigindo seu possante (um carrinho popular, parcelado em suaves prestações para pagar a perder de vista).
Foi à feira pela segunda vez naquela manhã em missão doméstica: comprar frutas e legumes a pedido da mãe. Como tem pressa, vai achando um jeito de estacionar naquela ‘muvuca’ que é a feira, gente passando, feirante gritando, flanelinhas espreitando, criança, cachorro, barulho, correria, calor e movimento. Tinha já achado uma vaguinha que parecia reservada para si e acelerou na direção da mesma.

Imagem fonte:

Acontece que outro veículo atravessou na frente em sentido oposto empatando-lhe a passagem. Até aí tudo bem, só que um terceiro elemento cismou de querer passar para o outro lado criando um impasse em forma de ‘T’. Havia pouco espaço para dois carros ali, imagina para três!
Ela resolveu abrir espaço recuando um pouco. Engatou a ré de seu carrinho popular e o deslocou por alguns metros. Era gente passando, feirante gritando, flanelinhas espreitando, criança, cachorro, barulho, correria, calor e movimento. Ela, agoniada com o calor, queria só sair dali o quanto antes, quando ouviu apenas o barulho seco e a buzina do motorista opositor tentando fazer com que ela parasse o veículo. Um pouco tarde.
O seu ‘possante’ tinha encostado na traseira de um quarto veículo que estava estacionado ali perto. Afff!
Não bastava aquela gente passando, feirante gritando, flanelinhas espreitando, criança, cachorro, barulho, correria, calor e movimento, agora ela ia se ferrar! Desceu do carro transpirando mãos e pés, suando frio. Veio um cidadão alto e forte perguntando: ‘não viu meu carro, não, moça? E ela franzina e mirrada: ‘vi não, moço, tava prestando atenção no outro carro ali’ e o altão: ‘não viu?! um carro dessa cor?!’ (o possante dele era amarelo Ferrari; pensa!...). E ela: tô te falando, moço, tava no ponto cego aqui...’e ele foi dando a volta no carro e olhando o estrago.
E ela foi recuperando as forças, dando a volta no carro e reparando que, para sua sorte, não tinha amassado nada! Só um arranhãozinho na pintura. Ufffaaa!
Daí que o grandão disse: isso sai com um polimento (...); mas você não enxergar um carro dessa cor! (...).
Daí que ela se desculpou e voltou pro seu ‘possante’. Ainda era gente passando, feirante gritando, flanelinhas espreitando, criança, cachorro, barulho, correria, calor e muito movimento. Mas agora ela nem queria mais estacionar, queria era ir embora. Os outros dois carros, os do ‘T’, já tinham vazado...rapidinho acharam meio de abrir caminho e passar! Ela agradeceu mil e uma vezes ao seu anjo da guarda (que pelo visto era mais forte, mais alto e mais bravo que o do grandão) e arrancou dali com o seu ‘possante popular’. Foi para casa e esqueceu o ocorrido.


Imagem fonte: http://prisaosemgrades.blogspot.com.br/2012/02/cuidado-com-meu-guarda-costa-1980-my.html

(...)
Dias depois ela tinha acabado de estacionar em frente à farmácia onde compraria uns remédios. Estava desligando o som do seu ‘possante’ quando ouviu um som seco e sentiu uma pancada na traseira do seu carro. Fechou os olhos por um segundo só, olhou pela janela do carona e viu um carro de cor preta parar na vaga ao lado, depois de atingir a traseira do ‘possante popular’. 
Ela só pensava em ver o estrago. Desceu do carro e acompanhou duas pessoas descerem do outro veículo. O motorista aflito, perguntou: ‘tudo bem aí’? ‘Bem, nem tanto’, pensou.
Mas de imediato se lembrou do incidente com o carro amarelo Ferrari. Deu a volta e percebeu que, para sua sorte, não tinha amassado nada! Só um arranhãozinho na pintura. Disse assim: ‘tudo, tudo bem (...); isso aí sai com um polimento’.
Então entrou na farmácia, comprou os remédios e foi para casa.
By M@riBlue.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Lista de Possíveis Soluções para os Cuidados com a Mãe

Recentemente eu e meus irmãos nos reunimos para decidir como cuidaríamos de nossa mãe idosa, na verdade nem tão idosa assim, mas debilitada pelo tempo e pelas lutas travadas em prol da vida e da sobrevivência. Refletindo sobre o assunto nasceu essa

Lista de Possíveis Soluções para os Cuidados com a Mãe

Tarefa delicada essa...
Juro que gostaria de listar uns sete, dez no máximo, itens que pudessem trazer de volta a alegria de viver da nossa mãe.
Infelizmente não sou capaz.
Só quero registrar que um dia desses aí qualquer eu olhei pro rosto dela e enxerguei: o tempo estava ali, implacavelmente marcado. Sem dó ou rodeio. O relógio já havia feito todas as suas voltas, todas elas.


Parei pra refletir e pra pensar em que momento foi que aquela ruga se instalou ali, em que dia aquele fio branco nasceu, em qual mês a magreza marcou presença, em que minuto a fragilidade se apropriou daquele corpo outrora tão forte e tão destemido.
Fiquei pensando em quantas vezes, em quantos momentos, em quais atos, omissões ou expressão da minha vontade eu tenha colaborado para a construção esse quadro tão angustiante e, por que não dizer, assustador.
Na verdade percebo, que não importa o que eu tenha feito ou deixado de fazer. O tempo é assim mesmo. A ação dele na vida e sobre a vida é inexoravelmente determinante.
Mas voltemos aos fatos.
O fato é que a nossa mãe é uma mulher que está olhando a vida do alto dos seus 75 anos. Percebo que é um olhar de quem conhece. Mas é um olhar de quem já viveu, de quem já pelejou, de quem já sofreu um bocado.
É uma mulher que se anulou completamente em função dos filhos. É uma mulher que aprendeu uma única coisa na vida: CUIDAR.
Estar a serviço foi a coisa que essa mulher fez a vida inteira. O tempo inteiro. E o seu discurso e a sua ação e a sua fala foram sempre ao encontro dessa bandeira que ela levantou talvez por falta de opções.
Por isso ela sempre fez o que pôde. E o que não pôde. Para agradar. Para não desagradar.
E acho que nesse trilhar ela esqueceu ou abriu mão de algumas coisas importantes. Entre essas coisas, percebo uma, que agora faz toda a diferença. Acho que ela ESQUECEU DE SER FELIZ. Sinceramente, nem sei se ela sabe exatamente o que é isso, ou como se faz isso. Ou se tem direito a isso.
Sei que agora ela poderia estar muito bem, sentindo-se vitoriosa e aproveitando um pouco a pouca vida que lhe resta. Mas ACHO EU  que ela nem sabe como.
Acredito eu, honestamente, que o nosso papel de filhos nesse momento seja o de descobrir como ajudá-la a ser feliz. Perguntei-lhe um dia: mãe o que te faz feliz? Acho que ela não sabe. Nem nós. Mas podemos tentar descobrir juntos. E de que forma faríamos isso???
Simplesmente ouvindo com atenção e cuidado as suas vontades, tentando entender o que ela ainda quer da vida, deixando-a à vontade, e, principalmente, PERCEBENDO AS SUAS LIMITAÇÕES FÍSICAS E EMOCIONAIS.
Vai almoçar com ela? Almoçar fora, talvez ela não curta muito, não viu? A coisa que ela mais gosta é da casa dela. Vai lá em casa então. Chega bem cedo. Vai à feira com ela. Compra os ingredientes e prepara você mesmo uma refeição pra ela. Ou prepara uma refeição com ela.
Se não quiser ou não puder almoçar, passa no fim da tarde e vai à missa com ela. Tenha certeza de que ela vai adorar. Se não quiser ir à missa aparece em casa e se oferece pra rezar o terço com ela. Vinte minutinhos, no máximo, trinta. Mas o efeito poderá ser poderoso. Acredite! Ela vai gostar também se você levar as crianças sempre que puder, mas aquela passadinha rápida, pras crianças tomarem a benção e ganharem uns afagos. Tá suficiente. Aparecer de surpresa para um café, com o pão e os brioches na sacola, também fica bom.
Acho que ela só precisa mesmo é se sentir amada, querida, valorizada e reconhecida. Diariamente, cotidianamente, regularmente, constantemente, diuturnamente.
Acho que para isso não precisa grandes movimentos ou escalas revolucionárias, não.
Basta MANTER O INTERESSE NELA DA MANEIRA MAIS DESINTERESSADA QUE PUDERMOS.
Por que foi exatamente isso o que ela fez por nós a vida inteira.
Acredito que chegou a nossa hora de retribuir.